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14/01/09

A quase certeza de uma possibilidade

[manuel a. domingos]

José Gil, no livro Portugal, Hoje – O medo de existir, defende que Portugal é o país da não-inscrição. O autor define inscrição como tudo aquilo que produz real e que se inscreve nesse mesmo real. Assim, segundo este autor, em Portugal pouco ou nada se inscreve, pouco ou nada produz real.

Desta maneira, talvez se entenda melhor o facto de uma revolução como o 25 de Abril não ter sentado no banco dos réus 50 anos de ditadura. A impunidade é total e absoluta. Quantos agentes da PIDE foram julgados e condenados pelos crimes que cometeram? Não nos podemos esquecer que muitos desses agentes torturaram e mataram pessoas, mas hoje são feitas biografias sobre alguns desses agentes. Onde estão os julgamentos dos responsáveis pela irresponsabilidade que foi a Guerra Colonial? Como se entende que um ditador como Salazar tenha sido o vencedor, já em plena democracia, de um “concurso” de popularidade? Como se entende que um ex-ministro da educação do Estado Novo – que, por muito mérito que possa ter, pactuou com um regime ditatorial – tenha um programa de televisão onde conta estórias sobre Portugal, sendo considerado por muitos como um grande e brilhante comunicador, quando tem no seu currículo a primeira (e única) carga policial sobre estudantes alguma vez ordenada por um ministro da educação?

Ora, o Portugal de hoje é reflexo do Portugal de ontem, isto é, de 50 anos de ditadura que não foi julgada por uma revolução. Repito: re-vo-lu-ção. Na realidade, a impunidade de um ditadura foi legitimada por uma revolução que instalou uma democracia.

É claro que não podemos esquecer que a revolução de Abril foi festejada e recebida de braços abertos, apesar da incerteza dos primeiros anos e da possibilidade de ela ser apenas «uma simples mudança de cenários gastos que não alteraria o pacatíssimo e delicioso viver à-beira mar plantado» (Eduardo Lourenço). No entanto, passados todos estes anos, essa possibilidade é hoje quase uma certeza.

18/12/08

Algumas razões

[manuel a. domingos]

Sempre que alguém, na casa dos trinta, diz que a vida está difícil, vem sempre outro alguém dizer que antes era pior. Entende-se por antes o período histórico do Estado Novo. Não nego tal facto: houve a guerra colonial – que arrastou para a lama e o capim a juventude deste país –, um senhor que fez aquilo que quis e o que não quis e, é claro, a polícia política. No entanto, nós, aqueles que estão na casa dos trinta, não precisamos de uma guerra para sermos atirados para a lama e o capim – na verdade nunca chegamos a sair de lá, reféns que estamos da lama e do capim dos nossos pais –, não precisamos de um ditador – pois desde o 25 de Abril que o destino de Portugal é orientado pelos mesmos, apesar da rotatividade democrática –, e não precisamos de polícia política – pois há muito que não se faz verdadeira política em Portugal, isto é, uma política que beneficie todos e não alguns, uma política que seja uma verdadeira ameaça para o poder estabelecido. O que temos, desde o 25 de Abril, são simulacros e compadrios, batalhas previamente acordadas.

Assim, falar deste país, aqui e agora – sem repetir o que outros já repetiram –, é uma tarefa que, à primeira vista, parece difícil, impossível e ingrata. Contudo, temos a vantagem de viver neste país, aqui e agora, enquanto outros parece que ainda vivem no país acolá e de ontem. Evitar ser pessimista é tarefa inglória em Portugal. Tentar não falar mal de tudo e de todos, também. Procurar pensar o meu país, aqui e agora, será considerado por muitos como um mero exercício de retórica ou, na pior das hipóteses, um capricho da juventude. E é aqui que reside, no meu ponto de vista, o primeiro problema ou questão (se preferirem): em Portugal é necessário ter mais de quarenta anos para ser levado a sério ou para poder dizer que viveu.

Ora, todos aqueles que nasceram na década de 70, do século passado, ainda não têm quarenta anos. Nasceram ou antes ou depois do 25 de Abril, mas ninguém sabe o que é viver, realmente, em ditadura. Aquilo que sabe da ditadura é a visão que outros deram dela. O mesmo se pode aplicar ao 25 de Abril e aos chamados anos do PREC: o que sabemos desses anos são estórias contadas, quer sejam utopias ou desenganos. Pergunto: o 25 de Abril cumpriu-se? Muitos dirão que não, pois o PREC (consequência directa do 25 de Abril) nunca foi concluído, devido a essa coisa que tem o nome de 25 de Novembro. Outros dirão que sim, devido, também, a essa coisa que tem o nome de 25 de Novembro. Estas duas datas, e todo o tempo que decorreu entre elas, são fundamentais para melhor se entender o Portugal aqui e agora. Bem vistas as coisas, somos seus reféns (mais da segunda do que da primeira data), sendo elas as principais responsáveis pelo actual estado do país, segundo uns e outros. São delas que nos temos de libertar. De outra forma continuaremos presos a esse passado ainda tão vivo na memória de muitos. Não digo com isto que devemos apagar a memória, digo apenas que não devemos viver refém dela.