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27/04/09

Não vá de maduro o Maio cair


[Luís Filipe Cristóvão]

Passados trinta e cinco anos da revolução que trouxe o regime democrático e a liberdade para o nosso país, muitas perguntas se poderão fazer: “valeu a pena?” não é uma delas. Estamos, neste momento, muito melhor do que estávamos antes. Temos melhores condições de vida, maior distribuição da riqueza, melhores índices na educação, mais voz na política internacional. Podemos, acima de tudo, dizer o que nos vai na cabeça, criticar o governo, escrever e publicar sem que uma qualquer comissão nos tenha que aprovar o pensamento. Se há coisa que posso agradecer aos que vieram antes de mim é o facto de ter conseguido viver trinta anos sem ser preso, nem investigado.


Mas podemos nós hoje fazer a festa sem ao mesmo tempo gritar, a 25 de Abril de 2009, que somos, eu e tantos outros que se atrevem ao sonho, uma geração traída? Porque as promessas que nos foram feitas não vieram assinadas pelo povo nem pelo MFA. Chegaram-nos pelas mãos dos Presidentes da República e pelos sucessivos governos de PS e PSD liderados por Mário Soares e Cavaco Silva, entre outros. Longe de sentir a necessidade de discutir a validade dos dois vinte e cincos, o de Abril e o de Novembro, o que a minha geração procura é uma resposta para que, passados os anos 80 e toda a promessa de modernidade, desenvolvimento e conquistas sociais, nos encontremos no mesmo buraco de onde nos pareceu que tínhamos saído há uns anos atrás.


Estamos a falhar na fixação da memória. O facto de se continuar a confundir ideologia com escolhas tácticas ou com justiças profissionais, o facto de se continuar a lamentar ou a acusar o vizinho da frente dos erros do pós-25 de Abril, continua a ofuscar-nos a possibilidade de pegarmos a realidade com as nossas mãos. O homem português do século XXI quer fazer, inventar, saber e descobrir, colocando as suas prioridades na acção, mais que na reflexão, para a qual nos falta uma ética e uma moral. Nunca houve da parte da Escola, nestes anos, um gesto que preparasse as novas gerações para a reflexão e aprendizagem dos valores da liberdade e da democracia implantados pelo 25 de Abril. Demasiado recente, continuam a dizer: mas se ao homem de hoje estiver oculta a realidade de ontem, terá ele clareza de espírito para as suas posições?


Estamos a falhar na promoção das igualdades. Temos uma larga percentagem de pobres em Portugal, e com o aumento do desemprego, essa percentagem cresce ainda mais. A solução para a pobreza não se faz só de subsídios, faz-se na educação e na promoção da participação na sociedade. Mas na escola o que se mede agora são os resultados. E a participação, hoje em dia, é telefonar para os fóruns da Antena 1, desleixando tantas vezes a possibilidade de participarmos voluntariamente numa associação, num encontro ou numa conversa, entre as pessoas da nossa terra. A sociedade mediatizada não será culpa dos portugueses, mas nós lutámos e conquistámos a liberdade em 1974 e agora só levantamos os braços para que o telemóvel tenha rede, no buraco onde vivemos, para enviar uma última mensagem escrita.


Sim, hoje somos mais livres para ver e apercebermo-nos do mal em que vivemos. E a crítica serve a quem fez a revolução, a quem esqueceu a revolução, a quem sequer a viveu: também eu sinto a culpa do político que não sou capaz de ser, deixando que a mediocridade se instale e utilize as minhas costas para chegar um degrau acima: eu também sou um traidor da geração traída da qual faço parte. O eu aqui não é indignação nem vitimização. O eu aqui é um gesto de salvação pela poesia, pela utopia que será sempre o motor de todas as conquistas do homem. Porque é ela que nos permite fazer a diferença, quando toda a gente quer que sejamos iguais. Por isso eu grito a geração traída, para que ela se sinta tocada, se identifique, e talvez acorde a tempo. Não vá, mais depressa, de maduro o Maio cair.

24/01/09

uma hiperbólica falta de hype


[Luís Filipe Cristóvão]


uma das características do ser português é a revolta interior contra o sucesso alheio: há sempre alguém que tem mais sorte e mais padrinhos a fazer exactamente a mesma coisa que nós fazemos, beneficiando assim da atenção e do carinho mediático em detrimento de nós próprios, que somos muito melhores, mas que ficamos do lado dos excluídos destes sucessos.

essa revolta interior é manifesta em artigos de opinião em jornais, em entrevistas, em blogues, nas rádios, nas ruas, nos cafés, até em casa, entre membros da mesma família. existe uma queixa generalizada sobre cunhas e padrinhos, sendo até difícil de perceber se, estatisticamente, seria possível existerem desses em tal quantidade que justificasse que Portugal andasse assim à bolina desta ideia.

faltará, ainda assim, perceber que o nosso problema não é sermos pequeninos, o nosso problema é termos uma hiperbólica falta de hype. o que significa isso? significa que nos falta ter a capacidade de nos tornarmos especiais alvo da atenção de quem promove a chamada da atenção aos outros. mesmo quando somos muito bons, temos que ser diferentes, se quisermos ter, em tempo útil (a curto prazo), um prémiozinho como uma capa de jornal ou uma entrevista na televisão.

isso é intrinsecamente mau? não, não é. ter hype é um desafio constante: pelo que se trabalha para o ter e pelas pressões que se sofrem por o não ter. há quem o tenha enquanto jovem (e aí o trabalho é menor, mas a pressão castrante), há quem o tenha enquanto velho sábio (e aí o trabalho foi imenso e a pressão, um tanto ou quanto, "cagativa"). para quem o tem na meia-idade, bem, apenas podemos aconselhar para não o gastar todo em miúdas novas.

o que não é mesmo nada produtivo é a revolta anti-hype-alheio. amigos, não vale mesmo a pena. concentrem-se no que sabem fazer e deixem o "barulho das luzes" para os outros. há momentos em que a melhor forma de se ser português é, mesmo, não se ser português tanto assim.

19/12/08

A Vergonha

[Luís Filipe Cristóvão]

Das muitas maneiras de começar a minha participação neste debate, decidi que a mais plausível, por ser aquela que mais rapidamente me veio à cabeça, é a vergonha como sentimento associado ao ser português. Embora o discurso oficial esteja associado à Saudade, a verdade é que hoje não queremos voltar atrás em nada, até porque, a bem da verdade, o povo português, enquanto povo, nunca se sentiu grande coisa, havia era mais dinheiro nas elites. Portanto, não queremos hoje entrar em guerra com Espanha, nem armarmo-nos em marinheiros, nem ter um império de Minho a Timor, nem nenhuma dessas histórias saudosistas. Aquilo que nós queremos, acima de tudo, é sentirmo-nos bem connosco próprios. Mas, certamente por escolhermos mal os métodos pelos quais avaliamos essa auto-satisfação, sentimos vergonha.

Sentimos vergonha da nossa selecção de futebol, por “só” irmos aos quartos-de-final do Europeu, por “só” ficarmos em quarto lugar no mundial, sem pensarmos que para se chegar a essas posições há um treino e esforço intensos, diários, insistentes, que não se coadunam com a nossa ideia de que os rapazes da selecção são uns calões vaidosos.

Sentimos vergonha no nosso primeiro-ministro, por ele ir para cimeiras internacionais armado em vendedor de computadores ou por declarar aos quatro ventos o seu seguidismo em relação às decisões do governo americano. Temos vergonha da falta de tacto dos nossos ministros, assim como temos vergonha da tacanhez dos nossos sindicalistas.

Sentimos vergonha da oposição, porque se ocupa a trucidar os seus próprios aliados, a contradizer os seus próprios princípios, porque parece que dez linhas num jornal são mais importantes do que ter uma ideia para resolver os problemas das pessoas que esperam deles alguma coisa.

Sentimos vergonha dos nossos frágeis prosadores mais premiados, ou porque viraram espanhóis, ou porque não conseguem fazer duas declarações coerentes seguidas. Sentimos vergonha dos nossos grandes poetas porque, aparentemente, ninguém os lê ou compreende para além da fronteira Caia/Elvas. Ou então ficamos muito surpreendidos, por haver alguém que lê e valoriza imenso aquele poeta nacional que nós ainda nem sequer lemos.

Sentimos vergonha dos nossos salários, dos nossos empregos, das nossas vidas profissionais, porque faça o que se faça, em Portugal, é tudo pequenino, país de primos e conhecidos, onde toda a gente sabe quem é toda a gente e quase não se dá um passo sem encontrar alguém que nos chame pelo nome e nos dê uma palmada nas costas. As perspectivas, aqui, são curtas, são poucas, e vivemos assim com vergonha de sermos portugueses aqui e agora.

Chegamos até ao ponto de sentirmos vergonha daquilo que poderíamos ter de melhor, o sol, a praia, o país bom para turista. Há dias, num encontro fortuito com um australiano de passagem por Portugal, perguntou-me ele que cidades o aconselharia a visitar, quais as mais bonitas. E a verdade é que, tirando as escolhas mais óbvias (Lisboa, Sintra, Porto) que ele já tinha visitado, os restantes pontos de interesse onde ele poderia chegar sem sentir uma enorme dificuldade com as ligações de transportes públicos, eram tristemente desinteressantes. E, porra, nem imaginam a vergonha que eu tive disso.